10 março 2015

Entrevista com Fred Castro



Galera, hoje a entrevista é com um dos caras que representa o mundo inline, quem me acompanha sabe que adoro patinar, e apesar do foco do blog não ser sobre esportes, eu adorei fazer isso (lado bom do blog não ter nome, não fica algo especifico).  Foi muito prazeroso entrevista-lo, vou aproveitar esse espaço para elogiar, porque de verdade, vi humildade, e amor pelo o que faz. E não é sempre que vemos isso. Veja abaixo: 
 
Gabie: Essa primeira pergunta eu fiz torcendo pra que você diga algo muito inspirador porque isso realmente me revolta -  o que você acha e o que você tem a dizer sobre as pessoas que rotulam a patinação como de garota e gay?

Fred: Excelente pergunta. Isso envolve muitas coisas, inclusive fatores culturais. Veja bem, o Brasil não é um país com histórico de esportes de patinação como no Canadá, por exemplo. Lá o Ice hockey, é o esporte mais praticado. Pra quem não sabe, Hockey é aquele esporte onde o jogador usa patins, um taco e um disco que desliza pelo gelo. É como um futebol de patins com tacos e um disco. Nesses países, existem tradições de esportes de patinação, e lá não existem esses preconceitos. Boa parte desse tipo de mentalidade, infelizmente, veio da indústria do Skateboarding, que no final dos anos 90, criou uma campanha contra os patins "Agressive inline" que é a patinação de manobras, por assim dizer, eles criaram campanhas de difamação dos patins, porque era o esporte que mais crescia no mundo naquela época. Meramente uma questão comercial. A indústria do skate estava "mal das pernas" financeiramente, e essa foi a maneira que eles encontraram pra desencorajar pessoas a patinar, ou pra reafirmar o skate como legítimo e os patins como uma cópia mal feita. Podem pesquisar, é histórico. No Brasil patins é conhecido apenas como os shows no gelo, onde casais fazem shows de dança sobre patins, nas olímpiadas ou as pessoas que passeiam na praia. A falta de conhecimento da população brasileira sobre os patins é assustador. Tem gente que não sabe o que é, e já me disseram "não pode andar de skate aqui" mesmo eu estando só como os patins no pé. Resumindo, já mudei a mentalidade de muita gente, mostrando "coisa de homem" feita com patins no pé. Basta ver as seções do Alex Broskow, ou Chris Haffey, patinadores americanos profissionais. Os melhores do mundo. Seja firme, se vista normalmente, no seu estilo, seja lá qual ele for, aja naturalmente, seja você. Se esforce e ande bem, duvido que alguém vai ter coragem de falar que você é gay ou qualquer coisa do tipo, na sua cara, ao vivo, se você tiver concentrado e amando o que faz. E se falar é simples, aprenda como devolver o insulto de maneira educada. Sem ofender a pessoa. Ser patinador é pra poucos. Seja o que os patins te molda. Seja um guerreiro! Não abaixa a cabeça pra ninguém, e se duvidarem do que você faz, peçam a eles pra colocar os patins no pé e tentar!
Gabie: Já pensou em dar aulas, ensinar pessoas a fazer certas manobras?

Fred: Já pensei não só em dar aulas como já pensei em fazer projetos sociais, aonde eu iria a alguma comunidade mais pobre, com alguns outros patinadores profissionais, faríamos uma demonstração para o pessoal, e distribuiríamos pares de patins gratuitos e alguns obstáculos. Seria uma ótima maneira de difundir mais essa modalidade da patinação de manobras entre as crianças e as pessoas que não tem recursos ou desconhecem o esporte. Sem contar que é uma maneira maravilhosa de manter seu corpo saudável, uma ótima válvula de escape, tira muita gente de fazer coisas erradas e ir pra caminhos negativos, por não ter como aliviar o stress de outra forma. Patins é uma benção. Já vi salvar a vida de muita gente. E se me fez bem, eu gostaria muito que fizesse bem a outras pessoas também. 

Gabie: O que te incentivou a treinar cada vez mais? 

Fred: Amei os patins desde o começo. Queria ficar bom. Queria dominar a arte, queria evoluir. Os patins moldou tudo que faço e penso, minha profissão veio dos patins, aprendi computação gráfica por causa dos patins. Aprendi o inglês que eu falo. Tudo! Ao longo do processo, você se apaixona tanto, que o treino é consequência, você simplesmente quer melhorar cada vez mais! Já tive ambições de ser reconhecido mundialmente, de ter uma seção de vídeo no aclamado e já extinto VG, VideoGroove, que era um vídeo famoso americano, onde os melhores sempre saiam nele. Mas no fundo no fundo, eu só queria patinar bem! Foi isso que me motivou! A força veio disso, da própria patinação. Da minha relação de amor e dedicação aos patins.
Gabie: Já vi você comentar algumas vezes que antigamente era tudo mais difícil,  conseguir os próprios patins e os demais equipamentos. Você acha que com a facilidade de hoje em dia a patinação é capaz de virar um esporte popular?

Fred: Sim, certamente facilita muito. Não digo que vá fazer mais pessoas entrarem pro "Agressive inline". Praticarem patinação de manobras. Pois é uma modalidade muito específica e exige muito do seu corpo e do seu tempo. Mas certamente existem mais pessoas patinando como recreação e se a pessoa se interessa pela patinação de manobras, existem muitos vídeos e lojas, online e físicas onde a pessoa pode experimentar um produto ou receber conselhos e dicas sobre como começar, fóruns online e a lista continua. Certamente o presente é mais promissor que o passado. Antigamente a patinação engatinhava sob o ponto de vista de desenvolvimento de produtos e acessibilidade do brasileiro. Hoje em dia temos mais recursos. Mas ainda não chegamos lá sob ponto de vista de divulgação e marketing do esporte.

Gabie: Como é conciliar o trabalho e a vida pessoal com a patinação?

Fred: Vou ser honesto. Muitas vezes uma coisa sofre em detrimento da outra. Ou estou trabalhando o tempo inteiro, ou estou patinando. Quando estou patinando, costumo brincar que estou em modo "Vagabundo roller". E quando estou trabalhando digo que estou em "modo-trabalhador". E realmente é mais ou menos isso, eu preciso de muita concentração e dedicação, seja lá o que for que eu estiver fazendo. Senão sai tudo "meia boca" como dizem por aí. E eu não consigo fazer nada pelas metades, ou mal feito. Eu bato cabeça até ficar bom. E assim é com a vida e os patins. E infelizmente, de vez em quando, uma coisa fica faltando na outra. Mas aprendi a lidar com isso, é complicado, mas eu vou de um modo pra outro! Graças a deus minha profissão me permite! Não preciso trabalhar fixo com o mesmo horário durante anos por exemplo. Sou freelancer, não gasto muito dinheiro, o que ganho eu guardo e vou vivendo das finanças! 

O que vocês acharam?  Comentem.